A voz dos 99%.

Manifestante do Occupy inclui-se na maioria

Por Gabriela Duarte.

Vivemos atualmente um fenômeno que nas ultimas décadas vem ganhando cada vez mais destaque: o fenômeno da globalização. Hoje em dia, é impossível explicar o mundo – seja política, social ou economicamente – sem levar em conta as transformações por ela acarretadas. Cada período desse fenômeno possuiu uma característica marcante referente ao tipo de sentimento que predominava na sociedade, que definiu a globalização como um processo em ocorrência no mundo, sob o qual as relações econômicas, políticas e sociais foram regidas e inseridas no modo de produção capitalista.

De acordo com Vladimir Safatle – famoso filósofo da USP e colunista da Folha de São Paulo –, em seu artigo do livro Occupy, é possível vermos a mudança no paradigma da globalização ao longo das últimas décadas. No final do século XX, predominava o sentimento de euforia, marcado pela crença no imaginário do encurtamento das distâncias, “fim das fronteiras”, homogeneização dos espaços, além do enfraquecimento dos estados nacionais. Sob essa perspectiva, estaríamos todos, então, vivenciando transformações na sociedade que culminariam num mundo único, com os mesmos costumes e oportunidades para todos. Esse discurso teria o papel de fazer-nos crer que, através das técnicas – que são cada vez mais avançadas – seria possível, enfim, um mundo sem desigualdades entre os povos.

Hoje esse sentimento não mais existe. A euforia acabou.

Manifestações na Grécia terminaram em conflito.

Apesar dessa ideia de homogeneização do espaço, o que constatamos ao longo das décadas subsequentes ao surgimento desse discurso é a acentuação das disparidades econômicas e sociais entre os países tidos como hegemônicos e aqueles considerados periféricos. A globalização, assim, não é causadora apenas de progressos e aspectos positivos, tal como nos fazem crer – o que Milton Santos descreveu como “a globalização como fábula”, em seu livro Por uma outra globalização. Ela possui também seu aspecto perverso, onde a fragmentação e a desigualdade persistem naqueles países que se inserem de forma precária no capitalismo.

Ainda de acordo com Safatle, no início do século XXI assistimos à ascensão do medo como afeto central da vida social, em substituição à euforia antes mencionada. Esse medo culmina no desencanto da grande massa populacional – representada pelos 99% anunciados como a parte defendida pelo movimento Occupy, porcentagem da população mundial que se encontra marginalizada dos principais processos de tomada de decisão que influem de forma extremamente relevante em suas próprias vidas.

O Rio de Janeiro também fez sua ocupação.

É nesse contexto que nos é possível abordar a atual importância e destaque alcançados por movimentos que utilizam as novas tecnologias móveis para organizarem, através da internet, formas de ocupação e mobilização nos espaços públicos existentes, visando contestarem a ordem vigente. Tais movimentos encontram-se desencantados com o capitalismo e as desigualdades por ele propiciadas, bem como a insatisfação pela falta de melhorias de vida para a maior parte da população mundial. Os diversos movimentos Occupy ao redor do mundo (Estados Unidos, Europa, Oriente Médio, Brasil) tiveram nas novas tecnologias um instrumento indispensável para sua organização, além de terem sido uma forma de divulgação dos acontecimentos independente da grande mídia. Essa independência é importante uma vez que, tem-se em mente, que a mídia oficial tende a mascarar fatos, manipulando notícias de forma que deturpe os reais objetivos por trás dos atos praticados por esses movimentos.

O uso das novas tecnologias possibilita que grupos com interesses em comum conciliem suas atividades do cotidiano com sua militância, de forma que haja uma melhor organização dos movimentos ao chegarem às ruas. Além disso, a internet possibilita a troca rápida de informações e o alcance a um número maior de pessoas que passa a ter conhecimento das causas por esses grupos defendidas.

Os 99% ocupam a rua.

Esses novos usos das tecnologias que vemos emergir na sociedade atual manifesta em si a esperança existente na visão de Milton Santos, ao afirmar que é possível “a construção de um novo mundo, mediante uma globalização mais humana.” O uso das técnicas que, por tantos anos, vem servindo às intencionalidades e finalidades do modo de produção capitalista, estando intrinsecamente ligado à sua lógica, pode hoje consistir num meio para novos usos políticos e sociais, interações entre diferentes culturas e povos. Sendo assim, vemos nesses movimentos que vêm eclodindo recentemente no cenário mundial a materialização dessa esperança de uma luta por um novo mundo, onde os 99% representados pelo Occupy possam, ainda que minimamente, ter voz.

Para saber mais:

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About gabrielafduarte

Graduanda em Geografia pela PUC-Rio.

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