Nada deve parecer impossível de mudar.

Texto gentilmente cedido por Lucas Pedretti, graduando em História pela PUC-Rio.

Uma camisa e uma ideia.

O poeta alemão Bertold Brecht (acima), para afirmar sua crença na utopia, disse que “nada deve parecer impossível de mudar”. Essa frase sintetiza a concepção de que a mobilização social pode ser o motor de verdadeiras transformações na sociedade, ideia que voltou a ficar em evidência durante as manifestações que ocorreram ao redor do globo em 2011.

Entretanto, por muito tempo a utopia ficou esquecida, uma vez que durante toda a década de 1990 imperou, no Ocidente, a ideia de que a História havia chegado a um fim, e de que transformações sociais não eram necessárias ou desejáveis. É importante entender, então, qual contexto histórico levou à crença absurda de que o curso da História havia atingido seu ponto final, sobre quais bases ela se afirmou e como ela teve seu fim. Só assim podemos compreender como chegamos ao atual estágio da globalização e quais são os resultados econômicos, políticos e sociais desse processo.

Queda do Muro de Berlim: euforia e… fim da História?

Em 1989, com a queda do Muro de Berlim, ficou evidente o que há tempos o totalitarismo soviético já mostrava: a alternativa vermelha falhara. Quando a União Soviética tem seu fim definitivo em 1991, o mundo, outrora bipolar, passa a uma outra lógica global, em que o capitalismo aparece como sistema vencedor, e, portanto, dominante. Ou seja, o mercado passa a ser o soberano. Além disso, o desenvolvimento dos meios de comunicação e transporte possibilita o deslocamento de bens, pessoas e informações de forma muito mais rápida ao redor do globo.

Esses dois fatores são essenciais para a afirmação da lógica da globalização pautada na economia neoliberal, cujos pressupostos são a supressão das regulamentações sobre o mercado, a redução das despesas públicas a partir dos planos de austeridade, o corte nos gastos sociais, a terceirização em diversos setores e a privatização dos serviços públicos. Nesse modelo, surge outro tipo de utopia, a da aldeia global, que não aparece na forma de um mundo melhor e mais justo, mas na ideia de que atingimos um nível de integração tão grande entre as diferentes partes do globo que atingimos o nível último do desenvolvimento humano. Nesse sentido, tendo o mercado como Deus supremo, as oportunidades são iguais, e o esforço pessoal é o único fator que determina se o indivíduo se tornará um winner ou um loser.  Aqui aparece o que o filósofo Vladmir Safatle caracteriza como o afeto que imperou na década de 1990: a euforia. O mundo chegara  ao seu ápice sob a égide do neoliberalismo e o economista americanano Francis Fukuyama determinara o “Fim da História”.

A História parece não ter atendido às determinações dos intelectuais do neoliberalismo: os conflitos étnicos do leste europeu, as manifestações populares contra as medidas propostas pelo FMI na América Latina, os movimentos de anti-globalização em Seattle e Genova, a luta do Exército Zapatista de Libertação Nacional em Chiapas, México, entre tantos outros conflitos locais e globais que aconteceram durante essa década, mostravam que aquele modelo não era tão ideal quanto tentava se mostrar. Até que em 11 de setembro de2001, o ataque de fundamentalistas islâmicos às Torres Gêmeas, em Manhattan, determina de vez o fim da euforia. O capitalismo parou: a circulação de bens, de pessoas e de crédito cessou. O presidente americano à época, George W. Bush, teve de ir à TV pedindo para as pessoas voltarem a consumir. É a partir daqui que, segundo Safatle, o medo toma o lugar da euforia.

11/09: o medo substitui a euforia

Com a crise financeira de 2008, ao medo soma-se o desencanto. Se o Onze de Setembro serviu para provar que os Estados Unidos não eram a potência intocável como se mostravam, a crise financeira que teve como ápice a quebra dos bancos mais importantes do mundo serviu para mostrar que seu modelo econômico, político e social também não era perfeito. Nesse momento, intalou-se, para Safatle, o desencanto como afeto central. E foi esse desencanto que motivou todas as manifestações que tomaram da Praça Tahrir à Cinelândia, de Wall Street à Plaza del Sol no ano de 2011.

Uma vez explicitado o processo histórico que levou da euforia ao desencanto, podemos buscar analisar o contexto atual do processo de globalização e como ele se relaciona com os aspectos aqui levantados. Essa globalização que, para o sociólogo francês Pierre Bordieu aparece somente como “mito justificador” e “discurso ideológico”, para o geógrafo brasileiro Milton Santos pode ser vista a partir de três diferentes pontos de análise: pode ser vista como fábula, perversidade, ou como uma outra globalização.

A Globalização como fábula certamente é pautada nos mesmos discursos que serviam para legitimar a euforia da década de 1990. Com uma homogeneização total do globo, não haveria possibilidade de crer na máxima de Bertold Brecht: o futuro não podia ser construído por meio da mobilização social e da luta política. Só se pode, portanto, assumir riscos, ser flexível, aceitar as determinações dos intelectuais do neoliberalismo, acreditar nos modelos matemáticos construídos nas faculdades de economia de Harvard ou do MIT – cujos professores eram as mesmas pessoas à frente das instituições financeiras mais importantes dos E.U.A. durante a crise – e fazer de tudo para não ser um loser. Esse modelo, sendo o auge e o fim da História, é também aquele que possibilitaria, por intermédio de um intenso desenvolvimento dos meios de comunicação e transporte, o fim das distâncias, e, portanto, o fim da geografia.

Por outro lado, a globalização como perversidade fica evidente quando percebemos os reais efeitos desse processo, os quais Pierre Bordieu caracteriza como involução:  a austeridade proposta pelos organismos internacionais – FMI, OMC – aos países subdesenvolvidos e o fim do welfare state, que destruíram uma série de conquistas importantíssimas, fruto de lutas políticas intensas. Além disso, as promessas de homogeneização do mundo serviram como base para uma intensa dominação ideológica e cultural, que colocou em risco identidades locais. Não é possível deixar de citar também o aspecto que se refere ao uso das tecnologias e meios de transporte. Esses elementos, que são os motores do processo de globalização, certamente não são disponíveis para todos os habitantes do globo. Nesse sentido, somente os que já têm acesso a eles podem desfrutar do encurtamento das distâncias e da maximização no uso do tempo. Assim, esse desenvolvimento tecnológico serviu tão somente para acentuar desigualdades já existentes, uma vez que os que já eram excluídos se tornam absolutamente alienados da chamada aldeia global.

E o como aparece uma terceira via? Para Milton Santos, a outra globalização é possível uma vez que a humanidade chegou a um estágio de desenvolvimento das técnicas nunca antes visto. O mais essencial, para ele, é que este é o primeiro momento da história em que as inovações tecnológicas mais avançadas estão ao alcance da grande massa (embora não de todos, claro). Ou seja, chegamos a um momento histórico em que é possível que essas tecnologias – criadas essencialmente para intensificar o processo de consumo e de dominação – tenham seu uso subvertido, e possam servir como meio de superação das desigualdades. Em suas palavras, as transformações históricas agora podem acontecer de baixo para cima. Ou seja, criadas no seio das massas, intermediadas pela tecnologia, as lutas dos excluídos contra os dominantes se acirrarão. Em termos parecidos, Pierre Bordieu defende a construção de um “novo internacionalismo”, que é exatamente a percepção de que há, agora, a possibilidade de criação de redes internacionais dos que se opõem ao sistema vigente: uma globalização subvertida. É importante notar que o geógrafo brasileiro faleceu em 2001, e o sociólogo francês em 2002. Eles não puderam presenciar o surgimento de ferramentas como as redes sociais, a internet móvel, os smartphones, entre outras tecnologias absolutamente novas que compõem a categoria mais ampla das chamadas “novas tecnologias de informação e comunicação”. Ainda assim, analisavam que as técnicas desenvolvidas no contexto da globalização poderiam ser usadas para criar uma oposição a ela mesma.

Milhares na Praça Tahir, em fevereiro de 2011: floresce o desencanto.

Dez anos após a morte do geógrafo, um Tunisiano se imolou em praça pública como forma de protesto contra o ditador Bem Ali. Aquela foi a faísca necessária para desencadear uma série de revoluções no Oriente Médio, em um processo que ficou conhecido como a Primavera Árabe. A ocupação da Praça Tahrir, no Egito, inspirou a ocupação da Plaza del Sol, em Madri. Essa, por sua vez, serviu como modelo para que em 17 de Setembro de 2011, atendendo ao chamado – feito pelo twitter – de ativistas da publicação anti-consumo canadense Adbusters, centenas de ativistas norte-americanos ocupassem a Zucotti Park, praça situada no coração do capitalismo financeiro global, no movimento chamado de Occupy Wall Street. Os movimentos de ocupação e protesto no ano de 2011 não ficaram restritos a esses: ocorreram em São Paulo, na Cinelândia, na Grécia, na Itália, no Chile, no Canadá entre diversos outros lugares. Cada um com sua especificidade local, mas todos congregando em alguns pontos. O principal desses pontos em comum é, exatamente como previra Milton Santos, o uso da tecnologia como principal intermediário. Essas  novas tecnologias da comunicação e da informação serviram para a convocação dos protestos, para a divulgação de ações, para buscar visibilidade após os atos, para denunciar abusos da polícia e para criar redes de contato entre os diversos movimentos. Nesse sentido, desempenharam papel fundamental dentro de todo o processo.

A Zuccotti Park é ocupada: a força produtiva do desencanto.

Com um sentimento parecido com aquele dos estudantes franceses de 1968, para quem ser realista é exigir o impossível, os manifestantes que ficaram em evidência no ano de 2011 trouxeram de volta às discussões a questão da utopia. Do facebook e do twitter para as ruas, esses ativistas reafirmaram a noção de que o espaço público não é uma mera via de deslocamento entre casa-trabalho-banco-shopping. Volta a prevalecer, então, a concepção de um espaço público como local da política por excelência. Esses espaços, nas palavras do geógrafo Paulo Cesar da Costa Gomes, são:

lugares onde os problemas são assinalados e significados, um terreno onde se exprimem tensões, o conflito se transforma em debate, e a problematização da vida social é posta em cena.

A mesma ideia prevalece quando um ativista do Ocupa Rio – ocupação ocorrida na praça da Cinelândia, inspirada no Occupy Wall Street – responde à pergunta sobre o por que ele estaria ali:

nós queremos que a praça seja um lugar de discussão. Porque causa tanto estranhamento ver pessoas sentadas nas praças discutindo, mas não há estranhamento ao se olhar para o lado e ver o McDonalds,  e tantos bancos?

Esse discurso, ouvido de forma recorrente em todos os movimentos Occupy e pautado muita mais em uma sensibilidade pessoal do que em qualquer estudo acadêmico, evidencia uma vontade coletiva de se voltar a discutir a política como a possibilidade de construção de um futuro diferente. Percebe-se que, de fato, ao redor do mundo todo as ferramentas tecnológicas serviram para impulsionar fenômenos que se materializaram no espaço físico.

Como conclusão, podemos afirmar que certamente, seria de um otimismo exagerado e infundado acreditarmos que atingimos as condições materiais necessárias para que se instale a  outra globalização. As desigualdades sociais e econômicas se acentuam cada vez mais, os conflitos religiosos se acirram, as questões de gênero são cada vez mais importantes, os próprios movimentos de 2011 não tiveram força para se estabelecer como uma alternativa concreta à política institucional, as redes sociais servem mais às empresas de publicidade que aos manifestantes, os bancos foram salvos pelos Estados e, principalmente, o discurso ideológico dominante, apesar de ter sofrido críticas, ainda se mantém hegemônico. Entretanto, é necessário levar em consideração que as próprias novas tecnologias da informação e da comunicação, que foram ferramentas essenciais para as manifestações, são ainda muito recentes, e não estão ao alcance de todos – muito longe disso. De qualquer forma, já se mostrou que elas podem ser usadas tanto para afirmar a ordem quanto para questioná-la. Seu desenvolvimento pode servir tanto para a afirmação definitiva de uma sociedade de controle de ou uma sociedade do espetáculo (cf. Guy Debord) quanto para a construção da outra globalização.

Esse processo que o discurso dominante convencionou chamar de globalização, portanto, ainda se apresenta da forma dicotômica: ora positiva, ora perversa. Entretanto, é evidente que a euforia da década de 1990 seria hoje totalmente infundada. Se será possível, um dia, construir o “novo internacionalismo” ou a “outra globalização” não se pode saber com certeza. Ainda assim, hoje, o menor dos celulares com internet – aparentemente tão inofensivo – pode desencadear o mais complexo dos processos sociais e políticos, como uma revolução. Nesse sentido, podemos retomar outra frase de Brecht, do mesmo poema citado na introdução. Originalmente criada com o intuito de criticar o sistema dominante, talvez ela possa servir hoje como um aviso àqueles que detêm o poder político e econômico, um alerta de que o descontentamento, somado à evolução da técnica, pode ser uma alternativa para se criar um mundo diferente: “desconfiai do mais trivial, na aparência singelo”.

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