Deixar de ser pessoa para ser um ideal.

Texto gentilmente cedido por Carolina Taveira Callegari, graduanda em Comunicação Social pela PUC-Rio.

Guy Fawkes em ilustração de George Cruikshank (1840).

O longa-metragem V de Vingança (V for Vendetta, James McTeigue, EUA/Reino Unido/Alemanha, 2005) , adaptado dos quadrinhos de Alan Moore e David Lloyd, traz a história de V, um homem inconformado com o regime totalitário instaurado na Inglaterra em um momento futuro. O personagem usa técnicas sofisticadas de atingir o governo a fim de descentralizá-lo e convencer a população a combatê-lo. A trama foi inspirada em quadrinhos de Alan Moore, que por sua vez referenciam a história verídica de Guy Fawkes que, em 1605, participou da Conspiração da Pólvora, em que se pretendia explodir o Parlamento Inglês, matando o rei Jaime I e os membros do parlamento. O plano falhou quando Fawkes foi preso, condenado por traição e enforcado, sendo lembrado até hoje no dia 5 de novembro.

Cartaz do filme “V de Vingança” (2005).

Capa da graphic novel que inspirou o filme (1982).

No filme, V retoma os planos de Fawkes para destruir o Parlamento na tentativa de desestruturar o governo vigente. Com características do nazismo, o regime instaurado pelo chanceler Adam Sutler muito se assemelha ao de Adolf Hitler. O controle dos meios de comunicação, principalmente a televisão, é bem desenvolvido no longa-metragem. Em diversos momentos, a emissora BTN recebe ordens de como as notícias devem ser passada ao público. Quando V destrói o prédio Bailey, os apresentadores do telejornal divulgam que houve uma demolição de emergência. A manipulação de informação é por vezes retomada, pois, assim, a população pode ser controlada.

O geógrafo David Harvey.

Capa do livro “Occupy”.

Como no texto do livro Occupy, em que o geógrafo David Harvey discute o fato de os governos se articularem em diversas instâncias sociais para conseguir manter o controle e que os meios de comunicação que deveriam prezar pela veracidade das informações cooperam com o sistema falho, no filme um dos responsáveis pela emissora diz: “Nosso trabalho é divulgar as notícias, não fabricá-las. Isso é com o governo”. Omitir os fatos, então, não noticiando o que acontece, é outra forma de encobrir a verdade. Como poderia o governo permitir que ações que têm como objetivo sua derrubada, sejam divulgadas? É como dar um tiro no próprio pé, jogar contra si. Não é coincidência que em tempos de revolução, ou de burburinhos menores, emissoras e gráficas sejam fechadas. Como V afirma: nada é coincidência. Grandes corporações formam uma cadeia sólida de controle e essa união não é dada ao acaso, tendo sempre trocas de favores em pauta.

Hoje, em diversas partes do mundo temos visto manifestantes indo às ruas e usando novas tecnologias de informação e comunicação na tentativa de se desviarem desse controle – o intuito é difundir suas ideias sem que seja preciso passar pela imprensa tradicional. Por isso o crescimento da movimentação em redes sociais, às vezes utilizando de live streamings, criando canais alternativos de debate e informação.

Cena do filme “V de Vingança” (2005).

Na trama, V também faz uso da televisão para expor sua ideologia. Ao invadir a emissora BTN, o personagem força que seja transmitido um pronunciamento sobre as atitudes tomadas pelo governo e sobre o estado de inércia em que a população se encontra. Em seu discurso, ele diz:

Como isso aconteceu? De quem é a culpa? Certamente uns são mais culpados que outros, mas serão responsabilizados. Mas o certo é que se quiserem achar o culpado, basta olharem-se no espelho. Sei por que fizeram isso. Sei que estavam com medo. Quem não estaria?

V começa a questionar o fato de a população fazer parte do sistema que os controla por não lutar contra ele. O povo é a maioria que se rende a um seleto grupo responsável por todas as decisões. É preciso que os membros da sociedade se reconheçam como mais fortes, a fim de acabar com a repressão. Nesse sentido, os protestos em Wall Street realizados pelos 99% indignados que questionam o 1% que detém grande parte da riqueza parecem cumprir esta tarefa. Não à toa,  vimos vários manifestantes do Occupy e de outros movimentos de rua usando as máscaras de V, sendo elas também o símbolo dos Anonymous.

Manifestantes na Occupy Wall Street utilizando as icônicas máscaras (2011).

Na Inglaterra mostrada no filme, o nível de controle é exuberante. Obras de artes são preservadas ao serem escondidas em cômodos secretos dentro das casas. Qualquer forma de expressar uma opinião contrária, ou simplesmente diferente, do que o governo impõe, é vista como ameaçadora, devendo ser combatida (como durante o regime Talibã no Afeganistão, na década de 90 até o início dos anos 2000, em que milhares de livros foram queimados a mando do governo por serem considerados com conteúdo impróprio para uma cultura islâmica, ou, simplesmente, por conterem figuras). Até mesmo o programa de televisão apresentado por Gordon é censurado. Por não usar o roteiro que havia sido previamente aprovado pelo controle e por fazer um quadro de humor em que satiriza a figura do chanceler Adam Sutler, revelando ao final, que ele e V são a mesma pessoa, Gordon é preso e assassinado. Era imprescindível permitir que a população continuasse a receber esse tipo de produção. A figura política mais importante do país não poderia ser questionada em rede nacional, já que poderia iniciar a discussão sobre o que, afinal, o povo estava sofrendo.

O chanceler Sutler discursa em cena do filme “V de Vingança” (2005).

Há um sentimento de angústia na sociedade. Um mal-estar que atinge a todos. É raro ver cenas em que apareçam pessoas em ambientes externos, como na rua, no parque, ou até mesmo em ambientes públicos como lojas e shoppings. No filme a população é mostrada como se estivesse se escondendo, dentro de casa ou no bar. Há um sentimento de desconforto com a condição atual em que se encontram, mas ao mesmo tempo, o conforto em continuar a salvo se ‘jogar conforme as regras’. A população está em um momento de desencanto, quando lutar não parece uma opção e o modo como vivem não é satisfatório. Sem dúvidas um dos maiores símbolos de controle são os megafones espalhados pelas ruas. Todos os dias, ao entardecer, a população é avisada sobre o toque de recolher, sendo que a voz que sai dos megafones afirma que é para a proteção de todos. Quem desobedece, é fortemente repreendido por agentes do governo. A população reclusa não contesta essa medida, tomando quase como uma ordem natural

Capa de “Por uma outra globalização”.

Milton Santos, grande nome da Geografia brasileira.

No livro Por uma outra globalização, Milton Santos afirma que “não é de estranhar, pois, que realidade e ideologia se confundam na apreciação do homem comum, sobretudo porque a ideologia se insere nos objetos e apresenta-se como coisa”. No filme e nos quadrinhos, os megafones materializam a ideologia autoritária. Não há como se debater, só resta seguir o que é mandado. Não há espaço para diálogo, sendo o megafone a representação da única voz que pode definir, e redefinir, regras sociais. Para que esse regime permaneça no poder, é necessário usar a repressão como principal arma, não abrindo brechas para contestações. Era importante manter as pessoas excluídas do espaço público como forma de garantir que elas não se mobilizassem para reagir. É mais fácil controlar indivíduos desorganizados do que um grupo com ideias definidas.

Reprodução dos quadrinhos de Alan Moore e David Lloyd.

Enfim, ao final, a população vai às ruas, mesmo sobre o aviso de que está no horário do toque de recolher e com a ocupação de tropas, o que cria um enfrentamento direto entre o governo e o povo. O fato de todos estarem usando as vestimentas de V simboliza que cada um tomou para si a ideologia, deixando de lado sua individualidade para lutar em prol de um bem comum. Usar a roupa não é somente apoiar as ideias que ela representa, é deixar de ser pessoa para ser um ideal.

Cena do filme “V de Vingança” (2005).

Para saber mais:

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