Horizontalidade, democracia e poder: os movimentos Occupy segundo Massimiliano Mollona.

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Massimiliano Mollona.

No último dia 5 de dezembro, o Núcleo de Estudos Trabalho e Sociedade (NETS) do IFCS/UFRJ organizou a palestra “Mudar o mundo: Occupy”, com Massimiliano Mollona, professor do Departamento de Antropologia da University of London.

Este texto é um breve relato gentilmente cedido por Lucas Pedretti, graduando em História da PUC-Rio, que a assistiu.

Diante dos vários movimentos de ocupação que ainda vêm ocorrendo mundo afora, intelectuais como Antonio Negri, Slavoj Zizek, David Harvey e Vladimir Safatle têm tanto produzindo escritos sobre a situação quanto ido à rua para estar junto aos manifestantes. Da mesma forma, Mollona afirmou que participou do Occupy London, que se iniciou no dia 15 de outubro de 2011, reunindo-se nas proximidades da St. Paul’s Cathedral para responder ao chamado global do Occupy Wall Street.

Os jovens ingleses ocuparam tal espaço público por causa de uma sucessão de crises: uma crise do Estado, seguida de outras duas, da economia e da educação, refletindo nas rendas familiares. Na universidade em que Mollona trabalha, um aluno deve pagar anualmente cerca de R$24.000,00 para estudar, o que pode explicar a maioria dos manifestantes ser de estudantes. Nesse sentido, o Occupy London seria um “movimento pedagógico” – diversas tendas se armaram na praça, em que alunos viravam professores e professores viraram alunos.

Occupy London.

Occupy London.

Na visão de Mollona, porém, alguns elementos que são vistos como absolutamente novos nos movimentos de ocupação já eram encontrados em outras manifestações anteriores, principalmente dois deles: o Reclaim The Streets (Recupere a Rua) – nome quase autoexplicativo para o grupo que ficou marcado como um dos mais importantes para organizar os “Dias de Ação Global dos Povos” contra as reuniões do FMI e da OMC – e os squatters – grupos majoritariamente formados por punks e anarquistas que ocupam prédios abandonados.Filhos do neoliberalismo de Thatcher”, esses grupos já possuíam em seu discurso elementos como o horizontalismo, a recusa da hierarquia, o desprezo pelas instituições políticas tradicionais e a organização autônoma em nível global.

Mollona afirmou que um dos grandes méritos do movimento Occupy tem sido reunir na praça grupos muito heterogêneos. Mesmo assim, umas das críticas mais constantes que se ouviu ao movimento foi o fato de só levar à praça grupos de classe média, sem saber dialogar com os trabalhadores. Quais seriam as causas disso? Falta uma profundidade crítico-teórica ao movimento? A ausência de um projeto propositivo? A ausência de líderes? Para ajudar a pensar essas questões, o professor lembrou que o horizontalismo, dentro do movimento, aparece quase como uma palavra mágica. Mas o que se percebe em todos os movimentos que tanto prezam – no discurso – a ausência de líderes, é a impossibilidade de se livrar de figuras de liderança. Haveria, com isso, certa dificuldade em dar uma identidade ao movimento. Isso seria reflexo do abandono da questão social e das questões de classe em prol de uma fragmentação das lutas, não apresentando projetos novos, mas tentando, cada grupo por si, se inserir na ordem social estabelecida.

Para Mollona, porém, os movimentos Occupy foram muito bem sucedidos quando trataram de colocar a democracia em discussão. Por colocar tantas pessoas diferentes na praça, tiveram que lidar com questões de poder e organização; tiveram que encontrar respostas – obviamente temporárias, mas que podem apontar para alguma direção – para questões clássicas sobre como conciliar representação e participação ou como não suprimir minorias. Afinal, será que o princípio aritmético da “maioria” também deve servir como valor absoluto e como princípio político? Mesmo assim, a falta de um programa propositivo é encarada pelo professor – e pela grande parte dos críticos do movimento – como um grande problema.

Tendo discutido as críticas e problemas que claramente se manifestam nos movimentos de ocupação e tendo também feito os elogios necessários, surge a pergunta: o que fazer daqui para frente? Talvez possamos usar como perspectiva uma última questão levantada, que por si só tomaria o tempo de outras várias palestras e encontros: a questão do poder. É possível mudar o mundo sem tomar o poder? Ou o é desejável? Seria de um otimismo sem fundamento acreditar que os movimentos Occupy sejam o apogeu da criação de uma “outra globalização”: Wall Street, Londres ou Cinelândia são somente um incipiente início. Como tal, ainda apresentam tantas características heterogêneas, tantos erros e acertos, tantas lacunas e perspectivas, que é difícil até mesmo falar delas.

Mollona não poderia ter finalizado de maneira melhor, ao lembrar que, acima de tudo, é necessário evitar o maniqueísmo. Não se pode imaginar que se trata de falsas disputas entre horizontalismo versus institucionalidade; partidos versus coletivos autônomos; revolta versus revolução; violência versus não-violência; internet versus rua. De certa forma, muito do que se discutiu no interior desses movimentos foi sempre nesses termos. Ora se faz uma utópica e quase esquizofrênica celebração da suposta falta de lideranças para elogiar os movimentos, ora se insiste em modelos há muitos superados para criticar as ocupações. Se nos prendermos a isso, certamente deixaremos escapar a chance de construir algo diferente. Mais que nunca, é preciso buscar com toda força a dialética – de que um certo Marx tanto falou – a fim de combinar formas novas e antigas de se fazer política. Sem recusar o velho, mas sabendo adequá-lo ao novo, podemos chegar a uma síntese ainda tão necessária aos movimentos Occupy.

Para saber mais:

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