A importância dos corpos na rua.

Por Valquíria Aciole.

O uso das tecnologias de informação e comunicação, hoje mais difundidas entre cidadãos comuns, permitiu outros modos de interação entre as pessoas e a constituição de uma rede global de trocas de informações. Há um notável intercâmbio social mediado por aparelhos eletrônicos (celulares, tablets, computadores) que são capazes de gerar e disseminar informação quase instantaneamente de qualquer localidade. Qualquer cidadão potencialmente é capaz de produzir informação e propagá-la pelos quatros cantos do mundo, processo que antes estava restrito somente aos meios midiáticos mais hegemônicos e institucionalizados, como a televisão, o rádio e o jornal impresso.

A informação transferindo-se entre novas tecnologias da informação e comunicação.

A informação transferindo-se entre pessoas e novas tecnologias.

Essa nova dinâmica social possibilitada pela interatividade informacional vem contribuindo, de modo bastante significativo, para o fortalecimento de mobilizações populares em esferas institucionalizadas, principalmente na esfera política. No panorama da difusão maciça de informações, facilita-se a ocorrência da articulação política que não mais é constituída apenas pela configuração partidária e institucional. Diversos têm sido os manifestos populares que se autodeclaram apartidários ou suprapartidários e que crescem exponencialmente tendo como base, em princípio, as novas tecnologias da informação e comunicação (sobretudo a internet), que tanto expande a visibilidade de grupos sociais mais engajados quanto de seus ideais e conceitos.

O geógrafo David Harvey.

O geógrafo David Harvey.

Em artigo presente no livro Occupy, o geógrafo David Harvey, contudo, afirma que é a condição da presença de corpos no espaço público o que legitima a ação em prol da justiça social. Em outras palavras, a mobilização via internet não seria por si só suficiente para maior efetividade dos protestos políticos, sendo necessária a ida à rua. Além da pluralidade de opiniões que se dão unicamente através do encontro de pessoas no espaço público (físico), a presença de corpos dá visibilidade ao protesto, incomoda, bloqueia a visão e a passagem, mantem a ideia como algo permanente. O espaço público, a rua, é onde a possibilidade de integração de pessoas de diferentes contextos sociais (estudantes, donas de casa, desempregados etc) potencializa-se, podendo sensibilizar insatisfeitos e descontentes, todos aqueles que sentem na pele ou reconhecem que há algo de muito injusto e errado na ordem social.

Alguns dos vários protestos de 15 de outubro de 2011 ao redor do mundo.

A internet revela-se capaz, é claro, de agregar pessoas para uma causa e de dar grande visibilidade para cada movimento. É uma eficiente catalisadora de mobilizações. Porém a ocupação de praças, ruas e edifícios deixa às claras os conflitos sociais e possibilita debates entre essas diferentes realidades. Pela presença e pela vontade coletivas, o espaço púbico torna-se um espaço de discussão, um poderoso instrumento de ação sem necessariamente depender de qualquer aparato eletrônico, pois basta apenas estar na rua.

A presença dos corpos nas ruas ainda é necessária para se articular formas coletivas de combate às injustiças e desigualdades presentes em nossa sociedade: protestos abertos ao diálogo na rua, no espaço público, ainda são mais importantes do que os debates rede virtual.

Para saber mais:

  • JINKINGS, I. (Org.). Occupy. São Paulo: Boitempo/Carta Maior, 2011.
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